Na poalha do tempo que passa, o pêndulo do relógio interno organiza-se
em sentimentos. Em vários sentimentos:
Sentimento de existir: penso, logo existo, logo funciono, logo continuo
Sentimento de percurso: percebo que a minha ligação entre passado,
presente e futuro terá um fim: descoberta da vida e da morte
Sentimento de nome: chamam-me pelo nome e eu respondo: sou eu: numa subjectividade única, paulatinamente
construída
Sentimento de eternidade: transformo em desejo a ausência de tempo que
nos meus sonhos pressinto, cultivando-o nas mitologias.
É no cruzamento do tempo interno com o tempo externo, no seu encontro/desencontro,
que os seres humanos se reconhecem. Não cresceriam nem teriam consciência de si
se tal fronteira dissolvessem.
Sempre em busca de apeadeiros, sempre sem definitivas soluções, todos tentam
conjugar esses dois tempos numa fluência jamais completamente satisfatória. Adiam,
antecipam, interrompem, confundindo dia e noite com o sono da recompensa.
A Arte (a arte de pensar, a arte de produzir, a arte de navegar) será o
grande refúgio e o melhor passadiço para os eventuais desembarques angustiantes,
justamente porque em simultâneo “eterniza” a subjectividade e ultrapassa o tempo
do relógio, muito antes de o inventar.
Sem (in)temporalidade todos os encantos e relações, todos os cumprimentos
e transgressões, todos os julgamentos e prejuízos, deixariam de fazer sentido. O
ser humano perderia intimidade e circunstância, incapaz de rir e de chorar, de amar
e de sofrer, de desejar e de prever. Sem história, sem memória, excluía-se de
si, excluído do seu próprio património emocional.
Cultura que tente apagar o tempo interno, ou que procure reduzi-lo a
tecnicidades e botões, alimentará inescapáveis fermentos destrutivos. Seria
acabar com espécie, ou com a humana condição, facto que simpaticamente não
desejamos.
Todas estes alcances serão analisados em múltiplas perspectivas no
fascinante programa da X Edição dos:
“Colóquios do Porto:
Psicanálise e Cultura”
que, em 4 e 5 de Novembro
de 2016, na Fundação Eng. António de Almeida, por nós espera.
Jaime
Milheiro
(Presidente Honorário do Colóquio)